Dra. Mónica Oliva – “A literacia em saúde é um elemento absolutamente central na gestão adequada da doença aguda na infância”

Entre os temas quentes do próximo Encontro Nacional encontramos a gestão da doença aguda nas crianças mais pequenas, assunto que justifica uma das mesas imperdíveis do evento, organizada em parceria pela APMGF e pela Sociedade Portuguesa de Pediatria (SPP). Nela, médicos de família e pediatras prometem analisar em pormenor e em conjunto algumas das causas mais importantes de doença aguda na primeira infância e com as quais os médicos de família se deparam amiúde no seu consultório: os exantemas infeciosos e as infeções respiratórias. Com o intuito de lançar desde já importantes pistas sobre o que será debatido na manhã do dia 10 de abril, a presidente da SPP, Dra. Mónica Oliva, frisa a relevância da atualização e partilha de conhecimento sobre as patologias pediátricas mais frequentes e comenta ainda questões de fundo vinculadas a cuidados de qualidade à população infantil no nosso país, como seja a literacia em saúde de pais e famílias, os constrangimentos no acesso à vigilância de saúde infantil e juvenil sentidos em determinadas regiões ou o grande potencial da parceria entre MGF e Pediatria.

Como encarou o desafio de participar na mesa-redonda «Pequenos, mas complexos – doença aguda na primeira infância», organizada em parceria pela APMGF e pela Sociedade Portuguesa de Pediatria no âmbito do 43º Encontro Nacional de Medicina Geral e Familiar? Esta é mais uma oportunidade para aproximar médicos de família e pediatras em áreas de interseção cruciais?

Dra. Mónica Oliva – Foi com grande satisfação que a Sociedade Portuguesa de Pediatria recebeu o convite do Sr. Presidente da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar, Dr. Nuno Jacinto, para participar nesta mesa-redonda. Trata-se de uma oportunidade muito relevante para reforçar o diálogo e a colaboração entre pediatras e médicos de família em áreas onde a articulação entre especialidades é particularmente importante.

Curiosamente, quando recebi este convite tinha acabado de organizar, enquanto coordenadora da Unidade de Coordenação Funcional (UCF) de Pediatria da ULS de Coimbra, uma formação dedicada ao tema “Patologia Aguda nos Cuidados de Saúde Primários”. Tendo em conta as orientações organizativas mais recentes do Serviço Nacional de Saúde, que reforçam o papel dos cuidados de saúde primários na observação da doença aguda não emergente, os pediatras e os médicos de família desta UCF acharam fundamental promover momentos de atualização científica e partilha de conhecimento sobre as patologias pediátricas mais frequentes.

Nesse sentido, ao receber este convite, fiquei particularmente satisfeita por perceber que estamos no mesmo alinhamento estratégico. Esta mesa-redonda representa precisamente esse espírito de colaboração interprofissional e será, para nós, uma honra poder contribuir para esta reflexão conjunta.

No que respeita à gestão da doença aguda na primeira infância, eixo central desta sessão, quais serão as patologias/episódios clínicos a abordar, em maior detalhe, junto dos seus colegas da Medicina Familiar?

A doença aguda na primeira infância é extremamente abrangente e poderia justificar várias sessões dedicadas. No entanto, tendo em conta que a mesa-redonda terá a duração de cerca de uma hora, optámos por centrar a discussão em dois grandes grupos de patologias muito prevalentes na prática clínica diária: os exantemas infeciosos e as infeções respiratórias, quer das vias aéreas superiores quer inferiores.

No âmbito das infeções respiratórias serão abordadas situações clínicas muito frequentes na primeira infância, como a rinofaringite, a otite média aguda, a amigdalite, a bronquiolite aguda e as pneumonias. Para além da revisão dos principais aspetos clínicos e diagnósticos, serão também abordadas estratégias de orientação que permitam uma gestão segura destes casos nos cuidados de saúde primários.

A partilha de abordagens baseadas na evidência científica e na experiência clínica poderá contribuir para uma maior uniformização de práticas e para uma melhor articulação entre níveis de cuidados, beneficiando diretamente as crianças e as suas famílias.

Como avalia atualmente a organização dos circuitos assistenciais ao nível da Saúde Infantil e de Adolescentes no nosso país?

No Serviço Nacional de Saúde, o modelo assistencial em saúde infantil e do adolescente assenta, tradicionalmente, numa organização em pirâmide. Na base encontram-se os médicos de família, que têm um papel central na vigilância de saúde, na promoção da saúde e na abordagem da patologia aguda mais frequente. Num segundo nível situam-se os pediatras hospitalares, responsáveis pela avaliação e tratamento de situações mais complexas, e no vértice encontram-se as áreas pediátricas altamente diferenciadas.

Este modelo tem demonstrado grande eficácia sempre que existem recursos humanos adequados, atualização científica contínua e uma comunicação fluida entre os diferentes níveis de cuidados. Nos últimos anos tem sido feito um investimento significativo na formação médica e na qualificação dos profissionais, sendo a Medicina Geral e Familiar um excelente exemplo desse esforço.

Contudo, a escassez de recursos humanos em algumas regiões do país e a dificuldade em otimizar plenamente os recursos existentes têm criado desafios importantes. Em determinados contextos têm surgido constrangimentos no acesso à vigilância de saúde infantil e juvenil, nomeadamente nos primeiros anos de vida, e também no acompanhamento da saúde dos adolescentes. Garantir que todas as crianças e jovens têm acesso equitativo a cuidados de saúde de qualidade continua a ser um objetivo fundamental do sistema.

Ao falarmos da doença aguda na primeira infância é impossível não pensarmos nos recentes constrangimentos sentidos em algumas urgências pediátricas, na reorganização que tem vindo a ser implementada e na necessidade de apostar na informação e formação de pais e populações. Como caracterizaria os esforços realizados nesta área e o que está ainda por fazer, na sua opinião?

Os pais são, na prática, os principais decisores de saúde das crianças e adolescentes. Fazem-no diariamente nas escolhas relacionadas com alimentação, vacinação, hábitos de sono, utilização de ecrãs ou estilos de vida. Quando surge uma situação de doença aguda, têm também de interpretar sinais e sintomas, decidir quando administrar medicação como antipiréticos e avaliar quando é necessário procurar observação médica.

A literacia em saúde é um elemento absolutamente central na gestão adequada da doença aguda na infância. Capacitar os pais e cuidadores para aceder, compreender e utilizar informação fiável é essencial para que possam tomar decisões informadas relativamente à saúde dos seus filhos.

Por esse motivo, é fundamental continuar a investir em projetos nacionais de promoção da literacia em saúde dirigidos às famílias. A Sociedade Portuguesa de Pediatria tem vindo a reforçar a produção e divulgação de conteúdos informativos dirigidos a pais e cuidadores. O nosso Portal Criança e Família é uma plataforma digital dedicada a disponibilizar informação fidedigna, clara e baseada na evidência científica. Este recurso, continuamente atualizado, pretende apoiar as famílias na gestão das situações mais comuns do dia-a-dia e contribuir para uma utilização mais adequada dos serviços de saúde. Mas ainda há, naturalmente, um caminho a percorrer.

Há exatamente dez anos a APMGF e a Sociedade Portuguesa de Pediatria assinaram um protocolo de cooperação. Que potencialidades futuras podemos ambicionar para esta ligação entre as duas Sociedades Científicas?

A assinatura deste protocolo de cooperação refletiu a visão estratégica dos dirigentes da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar e da Sociedade Portuguesa de Pediatria e reconheceu a complementaridade entre as duas especialidades e o seu papel central na promoção da saúde infantil e juvenil.

Esse protocolo prevê várias áreas de colaboração, nomeadamente na promoção do ensino e da formação, no desenvolvimento e divulgação de investigação científica e no estímulo ao debate e à partilha de conhecimento sobre temas clínicos relevantes para a população infanto-juvenil. Ao longo da última década, esta colaboração tem-se materializado através da participação recíproca em reuniões científicas, como o Congresso Nacional de Pediatria e os encontros da Medicina Geral e Familiar, bem como na organização de iniciativas formativas conjuntas.

Acredito que o potencial desta parceria pode ainda ser ampliado. Para além da continuidade destas ações formativas e científicas, será particularmente relevante aprofundar a colaboração na elaboração e divulgação de recomendações clínicas partilhadas, na construção de percursos assistenciais mais claros entre cuidados de saúde primários e hospitalares e no desenvolvimento de projetos conjuntos de educação para a saúde dirigidos às famílias.

Reforçar esta ligação entre as duas sociedades científicas é essencial para promover uma maior integração de cuidados, otimizar recursos e garantir que todas as crianças e jovens tenham acesso a cuidados de saúde de elevada qualidade e baseados na melhor evidência científica.