
É tempo de enfrentar o burnout
Em 2025, o Encontro Nacional promoveu uma mesa centrada na implementação de estratégias de prevenção do burnout entre os profissionais de saúde. Um momento para reflexão que, é certo, ter-se-á revelado útil para muitos dos colegas que participaram na sessão. Este ano vamos voltar ao tema, tão relevante para a estabilidade das equipas dos cuidados de saúde primários, para o equilíbrio e bem-estar dos profissionais e para a qualidade dos cuidados prestados aos utentes, mas desta vez concentrando a nossa atenção no diagnóstico, tratamento e reorganização pessoal e profissional, através de uma mesa programada para o dia 9 de abril, pelas 10h00.
Para esta discussão, moderada por Susete Simões (membro da Comissão Organizadora do evento), foram convidados palestrantes com experiência nesta área, nas suas múltiplas facetas, nomeadamente Cláudia Pires (especialista em MGF na USF Beira Saúde), Ana Silvestre (psicóloga clínica na Bee Yourself) e João Carlos Melo (psiquiatra no Hospital Professor Doutor Fernando Fonseca). O intuito é o de desmistificar o diagnóstico da síndrome, destacar a importância de procurar ajuda e a necessidade de uma avaliação abrangente, explorar as soluções viáveis de tratamento/correção não farmacológicas – entre as quais se contam a psicoterapia, as mudanças no ambiente de trabalho e ajustes de carga horária – e debater necessidade de uma reorganização efetiva no ambiente de trabalho e na vida pessoal.
Segundo Ana Silvestre, o problema tem vindo a intensificar-se nos últimos anos em várias classes profissionais, à medida em que observamos também uma maior consciencialização da sociedade portuguesa no que respeita a este desafio: “na fase pós-Covid, assistimos a uma curva crescente de situações de burnout e de cansaço muito extremo. Acredito também que pessoas estão mais atentas a estes detalhes e, por isso, elas próprias começam a ter muito maior noção dos seus limites e também de quando é que já chegaram a um nível de extremo cansaço. Ou seja, não só temos mais casos, como percebemos que as pessoas estão a diagnosticar mais e mostrarem-se mais preocupadas com a sua própria saúde mental e o seu bem-estar”.
A psicóloga e psicoterapeuta recorda que o burnout gera consequências graves para os profissionais em termos emocionais, cognitivos e por vezes físicos, que em muitos casos afetam as suas competências clínicas, ao interferirem em vertentes como a capacidade de concentração, o raciocínio, a lógica ou a recuperação da fadiga. “O burnout limita completamente a capacidade de decisão, as competências de comunicação, a vigilância, a memória, o autocontrolo, a empatia, a concentração. Ora, se um profissional de saúde atravessa problemas com a concentração, memória, com a tomada de decisão e a capacidade de empatizar, tal afetará tremendamente o seu dia-a-dia profissional e aumenta o risco, naturalmente, para ele e para os doentes”, reforça Ana Silvestre.
No que concerne às possibilidades de tratamento e correção hoje disponíveis, a especialista da Bee Yourself nota que se torna essencial perceber primeiro “o tipo de sintomas que cada pessoa apresenta, na medida em que existem pessoas mais propensas a determinado tipo de sintomas. Por vezes, estes sintomas são mais emocionais, noutros contextos são mais psicológicos ou físicos e é sobre essa realidade que vamos ter de intervir”. Na maioria dos casos, é sobretudo indispensável ajudar o profissional a introduzir transformações ao seu ritmo de vida e ao quotidiano, de forma gradual, antes que chegue a um ponto de rutura: “recuperação de burnout não significa trabalhar menos, significa trabalhar melhor. É claro que quando chegamos a determinados extremos muitas vezes não nos resta outra alternativa para além da baixa médica, mas o objetivo é nunca ter de chegar a esse ponto, passa por intervir a montante. Para tal, é necessário operar transformações no dia-a-dia, incentivar hobbies que deem prazer à pessoa, estimular situações em que se procura relações interpessoais (porque o burnout leva muitas vezes ao isolamento), aconselhar a realização de desporto de impacto, que terá efeitos positivos ao nível fisiológico, ao nível da produção de determinadas hormonas que vão atenuar a adrenalina e o cortisol. A isto acrescem outras medidas e intervenções, ajustadas às necessidades específicas da pessoa, como a promoção de respirações conscientes ou avaliar o tipo de alimentação (o café e o álcool, por exemplo, têm um impacto fortíssimo ao nível da ansiedade)”.
Ana Silvestre sublinha ainda que “o burnout, quando não tratado atempadamente e com eficácia, pode originar consequências graves no futuro. Isto é, se a pessoa não for tratada a probabilidade de voltar a ter de sintomas de burnout é significativa e a gravidade desses sintomas também poderá ser mais acentuada. Pode, inclusive, derivar mais tarde para depressão, crises de ansiedade, crises de pânico, uma perda de propósito na vida, um afastamento que muitas vezes leva a pessoa a não conseguir trabalhar, não só pelo cansaço, mas igualmente pela fobia daquele espaço tão agressor. Resumindo, uma reincidência tende a ser muito mais grave do que a experiência inicial de burnout”.
Na ótica desta psicoterapeuta, habituada a desenhar intervenções quer a nível individual, quer organizacional, nesta batalha sem tréguas contra o burnout todos os grupos etários são potenciais vítimas, o que significa que o momento da entrada no mercado de trabalho por parte do profissional é mais ou menos irrelevante e não o protege deste perigo específico: “os mais jovens têm uma capacidade maior de impor limites e uma maior atenção ao equilíbrio de vida pessoal e vida profissional. No entanto, também têm uma resiliência menor, integram gerações que já nasceram e viveram num mundo, digamos, um bocadinho mais organizado, não desenvolvendo muitas vezes a capacidade de resiliência que os permite aguentar tanto. Já os mais velhos aguentam mais, mas colocam muito menos limites, ou seja, trabalham em geral mais horas, gozam menos folgas e trocam mais de horários”.
Dados de um relatório da Ordem dos Psicólogos Portugueses, referente a 2023, mostraram-nos que o stress e os problemas de saúde psicológica no trabalho custam 5,3 mil milhões anuais ao país. Ana Silvestre está convencida que esta cifra esmagadora está intimamente ligada ao fenómeno do burnout: “o burnout leva a muitas comorbilidades, a muitos outros problemas de saúde física que muitas vezes não são atribuídos ao burnout, mas que resultam em baixas médicas, justificadas por dores de cabeça, dores intestinais, ou outras patologias indistintas que conduzem ao absentismo laboral ou ao presenteísmo, com um custo muito elevado para a economia. Por outro lado, todos os profissionais que lidam com a vida e com a morte, como as forças de intervenção, controladores aéreos, ou os profissionais de saúde, para além de apresentarem um fator de risco mais elevado para burnout, produzem um efeito de cascata porque, obviamente, além de serem retirados da sua atividade e deixarem de ser produtivos, acabam também por não estarem disponíveis para acudir a terceiros e, indiretamente, prejudicarem os seus índices de saúde e segurança. Este é um grande risco e o caso que nós vamos apresentar no Encontro Nacional está precisamente relacionado com um profissional que teve consciência disso e percebeu que estava a perder as capacidades de tomar decisões claras”.
