
Madalena Sá Fernandes - “A literatura, para mim, deve resistir à tentação de organizar o mundo em categorias confortáveis”
A sessão presencial do Clube de Leitura APMGF no 43º Encontro Nacional de MGF, agendada para o dia 10 de abril, pelas 18h15, em Tróia, vai ser dedicada à obra «Leme», romance de estreia da autora portuguesa Madalena Sá Fernandes.
«Leme», editado em 2023, traz-nos uma história dura mais infelizmente comum nas sociedades modernas. Uma criança vive imersa num ambiente de violência doméstica com um padrasto agressor, numa rotina marcada pelo aprisionamento e impotência. Trata-se de um registo de auto-ficção, que tocou fundo na sensibilidade de quem o conheceu, algo comprovado pelas muitas edições do livro já lançadas em Portugal e pela tradução e adaptação para outros países, como o Brasil, a Argentina ou a Dinamarca.
Na entrevista que se segue, Madalena Sá Fernandes fala-nos da sua paixão de longa data pelos livros e pela palavra, do processo de introspeção que conduziu à escrita do primeiro romance e de como os leitores acolheram esta obra, tão ambivalente quanto catártica.
É licenciada em Línguas, Literaturas e Culturas, algo que denota desde logo o seu gosto pelo universo da linguagem, mas sempre sonhou ser escritora, ou foi algo que surgiu de forma inesperada na sua vida?
Não me recordo de um momento específico em que tenha decidido, de forma consciente e programática, que queria ser escritora. A relação com a escrita surgiu muito antes dessa possibilidade sequer se formular como “profissão”. Surgiu como uma forma de atenção ao mundo, como uma tentativa de o compreender e, muitas vezes, de o suportar. Os livros, para mim, sempre foram um lugar, quase uma casa, onde era possível reorganizar aquilo que, fora dela, parecia disperso ou excessivo.
A licenciatura em Línguas, Literaturas e Culturas foi, nesse sentido uma confirmação. Confirmei a minha paixão. Durante muito tempo, escrever não foi uma ambição pública, mas uma prática íntima, quase clandestina. Só mais tarde é que essa necessidade encontrou forma editorial.
O seu primeiro romance «Leme», sobre a qual falaremos no Encontro Nacional de MGF, foi elogiado por muitos como sendo, ao mesmo tempo, cativante e incómodo para o leitor… Cativante por nos transportar para a memória mágica da infância e juventude que procuramos todos resgatar e reviver, de algum modo, a época da superação de desafios e novas descobertas, mas também desconfortável por colocar a nu questões como a violência doméstica, que muitos dos lares portugueses aprenderam a gerir em sussurros. É, na sua perspetiva, um livro agridoce?
Sim, “agridoce” no sentido de ambivalente, da coexistência entre o encantamento e a violência, entre a imaginação e a ameaça. A infância não é um território homogéneo. É um espaço onde cabem simultaneamente a descoberta e o medo, a liberdade e a opressão. Esta história em particular é muito marcada pela ambivalência em relação à figura do padrasto. Em Leme, há uma tentativa de preservar essa ambiguidade. Não quis escrever um livro que se resolvesse numa tonalidade única, nem que organizasse a experiência de forma confortável para o leitor. O desconforto faz parte da verdade do livro. Há da minha parte uma recusa em separar aquilo que, na vida, também aparece misturado.
Nunca escondeu que «Leme» tem uma forte componente autobiográfica. Como foi o seu processo de ajustamento à ideia de que iria colocar em página impressa experiências tão pessoais e traumáticas? Teve de refletir muito antes de dar o passo final?
Sim, foi um processo de grande reflexão, mas não no sentido de decidir se devia ou não contar. A questão nunca foi apenas a exposição. Foi, sobretudo, a forma. Como transformar uma experiência vivida, com toda a sua carga emocional e biográfica, em matéria literária e como encontrar a distância necessária para que aquilo que era íntimo pudesse tornar-se legível para os outros. Este trabalho de deslocamento foi essencial. A escrita permitiu-me sair de uma posição puramente pessoal e construir um espaço onde a experiência pudesse ser partilhada sem se esgotar em mim. Houve hesitação, naturalmente, mas foi uma hesitação produtiva, que ajudou a depurar o texto. O momento da publicação não foi um salto impulsivo, mas o culminar de um processo de elaboração longo e exigente.
Este livro foi um sucesso de vendas e captou muito a atenção dos portugueses (e depois dos brasileiros). O que justifica tal receptividade, na sua ótica? Diria que as pessoas folhearam o livro e encontraram relatos que também poderiam ser seus, da construção de mundos paralelos para escapar à dor e de estratégias para resistir... há aqui uma componente de auto-identificação?
Acredito que sim. Uma das coisas que mais me impressionou foi perceber até que ponto os leitores reconheciam, no livro, algo que lhes dizia respeito, mesmo quando as circunstâncias concretas eram diferentes. Há experiências que, apesar de muito particulares, tocam zonas comuns: a infância como espaço de ambivalência, os mecanismos de adaptação, a construção de mundos interiores como forma de resistência. O livro parece ter funcionado para algumas pessoas como um espelho imperfeito: não devolve uma imagem exata, mas cria uma superfície onde cada leitor pode projectar fragmentos da sua própria história. Talvez seja isso que explique a sua recepção, a sensação de que ali se diz algo que muitos reconheceram sem nunca terem conseguido formular.
É curioso notar que nesta história, como em muitas outras histórias em que emerge a violência no seio de uma família, o agressor não é a encarnação do mal puro, antes um ser complexo e com nuances. Era importante para si que assim fosse retratado?
Era fundamental. Não queria relativizar ou atenuar a violência que, no livro, é clara e inegociável. Mas acredito que a simplificação empobrece a compreensão. Quando transformamos o agressor numa figura unidimensional, quase abstracta, afastamo-nos da realidade concreta em que a violência acontece. Interessa-me, precisamente, esse território mais desconcertante, onde as fronteiras não são imediatamente legíveis. Mostrar a complexidade de uma personagem é diferente de desculpá-la. É expor com mais nitidez os mecanismos através dos quais a violência se instala e se perpetua. A literatura, para mim, deve resistir à tentação de organizar o mundo em categorias confortáveis.
Os temas que moldam «Leme» são fortes e propensos a gerar opiniões vincadas. Após a publicação do livro multiplicaram-se os comentários e análises no espaço público. Houve algum tipo de reação específica que a tenha surpreendido?
Sim, a quantidade de leitores que sentiram necessidade de partilhar histórias pessoais. Houve muitas mensagens, testemunhos, relatos que me foram confiados de forma inesperada. O livro parece ter criado uma espécie de espaço de abertura, onde aquilo que estava silenciado encontrou uma forma de ser dito. Essa resposta foi, para mim, profundamente marcante. Pela confiança que implica, e também porque revela a capacidade de produzir reconhecimento e, por vezes, de tornar dizível aquilo que até então não tinha linguagem. Foi uma das dimensões mais inesperadas, e mais significativas, da recepção do livro.
Este livro junta-se a um leque de outras criações que em anos recentes contribuíram para denunciar, no nosso país, as tentativas de silenciamento e menorização das mulheres. É algo que lhe dá especial satisfação?
Não penso a escrita em termos de missão ou de programa, mas é inevitável reconhecer que os livros participam de um determinado tempo. Leme surge num contexto em que há uma maior disponibilidade, e talvez também uma maior urgência, para falar sobre experiências que durante muito tempo foram silenciadas, especialmente no que diz respeito à violência e à condição das mulheres. Se o livro contribuiu, ainda que de forma modesta, para esse movimento de visibilização, então há nisso algo que me deixa feliz.
Está a escrever um novo livro. Fale-nos um pouco sobre esta nova “empreitada”...
É verdade, já está escrito e vai sair em breve. É um livro que, de certa forma, prolonga algumas das questões que já me interessavam, mas deslocando-as para outro lugar, mais fragmentário, mais aberto, menos narrativo no sentido tradicional. Tem-me interessado explorar a relação entre espaço e experiência, sobretudo a forma como certos lugares moldam a memória, o medo e a própria possibilidade de criação.
É um livro que se constrói muito a partir de imagens, de pequenas unidades de pensamento, de aproximações sucessivas. Há uma dimensão mais ensaística, mais reflexiva, mas sem abandonar a matéria autobiográfica. Diria que é um trabalho mais livre.
De certa forma, há uma continuidade com Leme, sobretudo na atenção à infância, à violência e à experiência íntima, mas aqui o movimento é mais ensaístico, mais livre formalmente, mais interessado também na arquitectura da escrita.
