
Mayara Floss – “As mudanças climáticas são a maior ameaça à saúde global do século XXI”
A 43ª edição do Encontro Nacional de MGF vai ter um encerramento em grande, com a ajuda de uma colega que tem os pés bem assentes na Terra – que é como quem diz, o Planeta Terra – mas sem dispensar a capacidade e o direito de o transformar. Médica de família no Brasil, mas também ativista pela causa da sustentabilidade e escritora, entre muitas outras coisas, Mayara Floss promete falar-nos das adaptações que todos temos de realizar para nos ajustarmos a uma realidade e a uma saúde coletiva fortemente marcadas pelas alterações climáticas. Abordará ainda o conceito One Health – ou Saúde Planetária – e boas práticas que lhe estão associadas e algumas dicas sobre o que pode ser feito em prol das populações mais vulneráveis. Embora alerte que “não existem «saídas fáceis» para as diversas crises que vivemos”, Mayara Floss (assumida mulher inquieta) acredita ser um imperativo não ceder à tentação de desistir e lembra que “cada médica e médico de família deve ajudar a semear outros mundos possíveis”.
Como gostaria de se apresentar aos colegas de Portugal... médica de família, investigadora, escritora, cidadã do mundo, ou um pouco de tudo isto?
Sou médica de família e comunidade, vegana, escritora, produtora audiovisual e ativista. Fiz meu doutoramento em Patologia pela Universidade de São Paulo. Atualmente atuo na Atenção Primária à Saúde da Secretaria Municipal de Saúde de Florianópolis. Também sou membro da WONCA Environment e do WONCA Working Party on Rural Practice. Idealizei e coordenei dois cursos EAD: Saúde Planetária e Saúde Planetária para Atenção Primária do Telessaúde-RS. Participo do grupo brasileiro de Saúde Planetária e do Instituto de Estudos Avançados - IEA/USP. Em 2023, fui finalista do Prémio Jabuti, o maior prémio literário brasileiro na categoria de crónicas, com o livro “Diário dos Abraços”. Em 2024, lancei um livro de contos que é uma distopia ambiental, intitulado «Mundo Impossível». Para além dos títulos e fazeres, eu gostaria de me apresentar como “inquieta” e semeadora de ideias e caminhos.
Sobre que tópicos essenciais gostaria de falar durante a sua apresentação no 43º Encontro Nacional de Medicina Geral e Familiar?
Acredito que seria fundamental abordar temas como resiliência climática, adaptação e futuro. As mudanças climáticas são a maior ameaça à saúde global do século XXI. Caso não consigamos nos adaptar vamos perder os ganhos que construímos ao longo do tempo em relação à saúde pública. Médicas e médicos de família têm o papel fundamental de conversar com suas comunidades sobre esses assuntos.
Como e quando lhe surgiu o interesse particular pelas questões ambientais e a sua relação com a saúde humana?
Quando me aproximei da saúde rural e de comunidades remotas. Ainda na minha graduação acabei me aproximando também da temática. Em 2018, fui convidada pelo colega Enrique Barros para coordenar o Policy Brief do Lancet Countdown para o Brasil e desde então estou envolvida com o tema. Tem também uma raiz familiar: meu pai é Engenheiro Florestal e a minha mãe é bióloga, sendo que minha mãe começou a faculdade quando eu tinha 7 anos. Acredito que crescer nesse lugar familiar também influenciou a minha perspetiva de mundo.
O conceito de One Health, ou Saúde Planetária, é relativamente novo e ainda um pouco estranho a muitos profissionais de saúde. Parece-lhe que a integração das melhores práticas de sustentabilidade subjacentes a este conceito será incontornável para futuras gerações de médicos de família e comunidade?
Com certeza, acho que não será, já é. Em um artigo de 2021 trouxemos a ideia da saúde planetária como o oitavo atributo da Atenção Primária à Saúde. Por exemplo, a poluição do ar foi responsável por 8,1 milhões de mortes globalmente em 2021, tornando-se o segundo principal fator de risco para morte, incluindo para crianças menores de cinco anos. Este é apenas um exemplo, ainda temos as ondas de calor, desastres socioambientais, extinção em massa, poluição das águas, alimentos, etc. Em suma, é um problema de agora e toca na nossa prática como médicas e médicos de família.
Tem uma ligação forte com a Medicina Familiar exercida em comunidades rurais. Estas comunidades enfrentam desafios específicos, no que respeita a consequências nefastas para a saúde de fatores ambientais, ou preocupa-a mais a ausência de meios fora das grandes cidades?
As populações mais pobres e vulneráveis são, em grande parte, residentes de áreas rurais e remotas (ou como chamamos no Brasil povos do campo, água e floresta) e dependem da natureza para o seu sustento. Essas populações estão altamente expostas à ameaça de desastres naturais. Estão entre as mais afetadas pelos efeitos das mudanças climáticas e ambientais. Por outro lado, as comunidades rurais são responsáveis pela proteção dos biomas e também pela produção dos alimentos que alimentam o mundo. É por isso que precisamos de pensar na saúde rural e planetária.
Durante o seu percurso formativo e profissional teve a oportunidade de passar por várias regiões, países e realidades... A sensibilidade para as questões do impacto da saúde planetária é muito variável conforme as prioridades e populações locais?
Sim, e quanto mais vulnerabilizada a população mais difícil o é. Vivenciar ondas de calor em uma região de favela exige muita adaptação e capacidade de resposta dos serviços de saúde – e a necessidade de mais políticas públicas para essas populações. Mas é interessante pensar, também, que decisões deste nosso mundo globalizado impactam “globalmente". A própria questão da pressão constante por combustíveis fósseis faz com que áreas não antes exploradas se tornem alvo de políticas e liberações para a exploração de petróleo, como aconteceu recentemente na Região Amazónica. Ailton Krenak, grande líder indígena brasileiro do povo Krenak, diz “não se come dinheiro”. Precisamos lembrar que somos natureza, que semeamos nosso ambiente.
Na sua tese de doutoramento defende que a arte, a literatura, a ficção e outros meios de comunicação atravessam a consciencialização e a formação da saúde planetária, sendo estas as ferramentas que podem ser utilizadas para re-imaginar o presente, futuro e a nossa relação com a terra ou a ter(r)apêutica. Na sua perspetiva, cada médico de família tem a missão e o dever de explorar tais ferramentas?
Nesse mundo que construímos para viver não existem «saídas fáceis» para as diversas crises que vivemos, mas também perpassa pelas nossas mãos a semeadura de novos caminhos. Eu percebi ao longo do tempo, mesmo com a criação dos cursos de Ensino à Distância de Saúde Planetária, com a formação de diversos profissionais e comunidade, que só a educação e a informação não iria dar conta da missão de consciencializar as pessoas sobre a urgência das mudanças climáticas. Então, mergulhei na ideia da ficção e escrevi o livro «Mundo Impossível», justamente para provocar a reflexão sobre as mudanças climáticas através de uma distopia. Coloco em forma de personagens e histórias as ideias ligadas às mudanças climáticas e questionamentos de como vivemos. Por exemplo: como seria se você acordasse um dia e não existisse mais nenhuma árvore? Acredito que cada médica e médico de família deve ajudar a semear outros mundos possíveis. Assim acontece, por exemplo, quando inicio um pré-natal na minha equipa eu ofereço a opção de plantar uma árvore nativa para aquela família. Com a ideia de reflorestar o local onde eu vivo e de uma árvore crescer com aquela família.
A APMGF já tem um Grupo de Estudos One Health, e a Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade dispõe de um Grupo de Trabalho de Saúde Planetária, estruturas que representam uma exceção no panorama das sociedades científicas da área da Medicina... Cabe, de facto, à Medicina de Família e Comunidade liderar esta transformação a caminho de uma prestação de cuidados de saúde mais sustentável, com menor pegada de carbono e impacto no planeta?
Nós, médicas e médicos de família, temos diversas implicações com nossos pacientes, comunidades e com o meio ambiente. Os povos tradicionais veem o ambiente como parte do corpo, parte do território. Se o setor da saúde fosse um país, seria o quinto maior emissor de CO2 do planeta. Então, precisamos pensar em saídas possíveis e coletivas. Muitas médicas e médicos de família em geral, como refletido num artigo sobre seis passos para tornar a atenção primária “mais verde”, já têm uma prescrição baseada em evidência (ou prudente), ou encaminhamentos responsáveis e podemos servir de exemplo para nossas comunidades. Mas acredito que cada vez mais tenhamos que pensar em ações com a população, educação popular e semeaduras de outros mundos (e medicinas de família) possíveis.
